quarta-feira, 24 de março de 2010

Zumbilândia (2009)



Estreando o espaço de resenhas de filmes e documentários...

Em meio a uma grande quantidade de gêneros cinematográficos existentes pelo mundo afora, um se destaca aos meus olhos, sempre despertando curiosidade e paixões. Os filmes de zumbis. Mas nem sempre foi assim: algumas películas trashs da década de oitenta (quem nunca assistiu um deles nas sessões vespertinas de filmes do SBT – sobre a “volta dos mortos-vivos”, ou no Cine Trash da Bandeirantes apresentado pelo Zé do Caixão, ou no Corujão da Globo?) não honram as idéias e intenções dos verdadeiros clássicos, mesmo nos dando alguns sustos.

Não seria exagero elevar à condição de gênero cinematográfico alguns filmes de terror com uma temática tão específica? Penso que não, mas esse assunto ficará guardado para outra hora. Para o momento, basta nos lembrar de um filme obscuro, feito com baixo orçamento em 1968 que foi o marco inicial desse gênero. Filmado em preto-e-branco de forma independente, Night of the Living Dead foi escrito, roteirizado e dirigido por George A. Romero, e marcou definitivamente a história dos filmes de terror tanto quanto – arrisco dizer – as películas de Alfred Hitchcock.

Pôster original de Night of the Living Dead (1968), o precursor do Gênero de Zumbis na 7ª arte


Em sua trilogia clássica sobre zumbis (Night of the Living Dead, Dawn of the Dead e Day of the Dead), Romero utiliza o contexto de uma catástrofe não-explicada, uma infestação de zumbis que levou os mortos a se levantarem e a atacarem os vivos de forma completamente irracional, para trabalhar questões da mente e do comportamento humano, tanto no plano individual como no plano coletivo.

Como agiriam as pessoas em situações de pressão como essa? Será que os instintos básicos de sobrevivência tendem a se sobrepor à solidariedade humana? Até que ponto nossos comportamentos consumistas guiam nossas ações? Romero sempre utilizou os zumbis como pretexto para analisar seus personagens extremamente humanizados, com todos os seus defeitos e virtudes.

Zumbilândia (2009), recentemente em cartaz nos cinemas brasileiros, é um filme que segue a tradição do gênero iniciado por Romero. Dirigido com Ruben Fleischer e roteirizado por Rhett Reese e Paul Wernick, possui fortes elementos de comédia que, na minha visão, servem para atingir dois principais objetivos: para ressaltar a idéia de carpe diem sempre presente, e para atenuar a carga dramática existente – que se nós paramos pra pensar, é grande, e só se evidencia em algumas situações específicas onde os protagonistas fraquejam e se despem de suas cascas protetoras.

Por exemplo, o fato de eles buscarem não se envolver inicialmente uns com os outros, não revelando seus nomes e se tratando simplesmente por seus lugares de origem, de forma alguma é um objetivo que se concretiza. Columbus, o jovem e recluso nerd sem nenhuma base estrutural familiar; Tallahassee, o parceiro durão; Little Rock e Wichita, as irmãs órfãs sobreviventes; todos eles quebram as barreiras protetoras auto-impostas em momentos de beleza singular – seja em rodas de conversas noturnas ou em momentos onde a raiva é extravasada pelo quebra-quebra de tudo que aparece na frente.

Columbus (agachado) e Tallahassee (com o taco) confraternizando em uma loja de conveniências


Assim eu percebi Zumbilândia: como um elogio à vida apesar das adversidades. Existem outros ideais incutidos, lógico, pois o filme não deixa de ser uma produção hollywoodiana e a realidade retratada é o mundo do american way of life, mas a essência é essa: aproveitar a vida, sobre todas as diversidades. Mas sem se limitar a cuidar do seu próprio jardim, conforme a conclusão individualista do pobre e ex-otimista Cândido, de Voltaire; o carpe diem só tem sentido para os personagens do filme quando seus dias são vividos entre iguais.

Quem tem medo de palhaços? Columbus tem...


O filme, além do Woody Harrelson no papel de Tallahassee, ainda conta com uma participação marcante do genial ator e comediante Bill Murray (A vida marinha com Steve Zissou - 2004, Encontros e Desencontros - 2003, Os caça-fantasmas - 1984) no papel dele mesmo. Recomendo o filme, para ser assistido de forma bem despretensiosa em um fim-de-semana tranquilo. Entretém e ainda dá o que pensar, caso você esteja disposto a fazê-lo, vendo o filme com olhos simpáticos e sem preconceitos.

E para terminar, vejam só o zombie kill of the week (do filme, é claro...!)


terça-feira, 23 de março de 2010

Punidos e impunes da Lei da Anistia por Carlos Latuff




A força da imagem traduz idéias de forma que um discurso inteiro, às vezes, não é capaz de expressar.

A charge do cartunista Carlos Latuff trata muito bem sobre os termos da anistia ampla, geral e irrestrita brasileira. E quando entram em pauta discussões sobre sua revisão, falando-se em punição não apenas dos torturadores, mas também dos militantes de esquerda por crimes políticos cometidos, surgem as perguntas que não querem calar: quem já foi punido? E quem ainda precisa ser?


Um panfleto ideológico não tão fundamental

Chamou minha atenção o título de um texto em coluna de opinião de um grande portal de notícias paraibano (todos os links estão no final da postagem). Intitulado "Um livro histórico fundamental", o texto de Ipojuca Pontes parecia ser uma leitura instigante, e de fato o foi, mas de uma forma que eu sinceramente não esperava.

O “livro histórico fundamental” em questão trata-se do Ovril (o vocábulo Livro escrito ao contrário – esse era o nome-código do projeto) um panfletário dossiê produzido por uma comissão de militares na segunda metade da década de 1980, sob as ordens do General do exército brasileiro Leônidas Pires Gonçalves. Seus poucos exemplares, produzidos após aproximadamente três anos de levantamentos feitos pelos militares em seus próprios arquivos e documentos secretos, seriam uma resposta ao projeto coordenado pela Arquidiocese de São Paulo e por D. Paulo Evaristo Arns, que deu origem à obra-denúncia intitulada Brasil: Nunca Mais, e tiveram sua publicação vetada pelo mesmo general, já nomeado ministro do Exército do governo Sarney. A lógica seria que sua publicação traria problemas em uma conjuntura onde ocorria o processo de reabertura democrática no país, pois impediria a cicatrização das recentes feridas políticas e sociais. Esta fora a mesma lógica que motivou o advogado, deputado pelo PSB e militante das Ligas Camponesas Francisco Julião, cujo livro Cambão: a face oculta do Brasil, mesmo finalizado em 1968 e publicado em vários países, apenas ano passado (2009) ganhou sua primeira edição nacional.

Deparei-me com uma fonte valiosa de pesquisa histórica a narrar a visão da instituição militar brasileira sobre boa parte do século XX no Brasil, mas nem de longe chego a cometer a imprudência de tratar tal obra, também chamada de As Tentativas de Tomada do Poder ou O Livro Negro do Terrorismo no Brasil, como “uma obra essencial”, como uma das mais importantes e “impressionantes obras nacionais”, nas palavras do próprio Ipojuca Pontes. O texto elogioso prossegue, qualificando o Ovril como: “documento extraordinário a se constituir em leitura obrigatória para quem, de modo abrangente, pretende conhecer a verdadeira história da subversão comunista no Brasil”.

De fato, é um documento histórico relevante aos historiadores que pretendam abordar o período de 21 anos da história brasileira marcado pela Ditadura Militar, pois retrata de que modo a política de segurança nacional enxergava os acontecimentos, os movimentos sociais e instituições da sociedade civil de forma geral. Nele, podemos ver até que ponto a paranóia anticomunista foi utilizada como justificativa para uma “revolução” preventiva, iniciada em 1º de abril de 1964, que visava desarticular os focos militantes de esquerda e demais comunistas “infiltrados” em território tupiniquim, os quais estariam preparando uma guerra revolucionária em solo brasileiro. Mas tal livro, ou melhor, Ovril, não passa disso: uma fonte histórica relevante que traduz o pensamento da instituição que durante duas décadas comandou o Brasil utilizando, para isso, um diversificado aparato de repressão policial e militar, valendo-se de torturas e assassinatos – muitos dos quais até hoje se encontram abafados, envoltos em uma misteriosa cortina de fumaça que ainda paira defronte à vista das famílias de pessoas desaparecidas durante os anos de chumbo.

Ao ler o texto de Ipojuca, imaginei o tremendo problema de se comparar verdadeiras obras das ciências sociais brasileiras com o panfleto militar de mais de 950 folhas datilografadas divididas em dois volumes: reduzir Casa Grande e Senzala, Formação do Brasil Contemporâneo, Raízes do Brasil, Rubro Veio entre outros trabalhos clássicos para a compreensão da história e da sociedade brasileira, ao nível do panfleto ideológico e conservador intitulado Ovril me parece algo impensável e que carece de coerência com o rigor exigido pelas ciências humanas na produção de conhecimento. Gilberto Freyre, Caio Prado Júnior e Sergio Buarque de Holanda, os autores das três primeiras obras supracitadas, devem ter se revirado em seus túmulos.

Pois na faculdade de história aprendemos que um trabalho histórico deve sempre buscar a inalcançável imparcialidade, e o pesquisador deve ter compromisso com a verdade – ainda que reconheça que sua produção será mais uma versão, entre tantas, daquilo que ocorreu. Mas o valor de sua contribuição reside na interpretação que poderá dar aos fatos de acordo com os problemas por ele propostos, o que nos ajuda a entender melhor o processo de construção humana. Esse é o comprometimento de um pesquisador preocupado com a verdade e com a viabilidade da construção de um método de análise conseqüente com o objetivo de melhor compreensão da realidade. Nesse sentido, o Ovril não passa no teste, pois, como comprovei com meus próprios olhos, é apenas um panfleto. O Ovril poderia ainda ter algum valor literário ou formal, mas isso não ocorre: sua leitura é seca, concisa e direta, como pode vir a ser a disciplina em tais instituições.

O Ovril também desrespeita os inúmeros sujeitos históricos da época da Ditadura Militar, entre estudantes, camponeses e sindicalistas. Ao alimentar a paranóia anticomunista como forma de justificar as ações dos militares, desde o Golpe de 1964 até o infame AI-5, suas páginas retratam tais sujeitos – em especial os estudantes – como massa de manobra dos PCs (partidos comunistas) da URSS, de Cuba, e da China. Fidel Castro, Mao Tsé-Tung, Che Guevara, Khrushchov e Brejnev parecem ser agentes mais importantes do que os próprios brasileiros e seus movimentos sociais em sua busca pela ampliação da participação política e o acesso a direitos sociais. Se a influência do das idéias socialistas e do comunismo pelo mundo afora é um fato que não pode ser ignorado na história do Breve Século XX, parafraseando o historiador britânico Eric J. Hobsbawm, dentro do contexto da Guerra Fria que cindiu o mundo em dois lados distintos por décadas; tal constatação não pode servir de desculpa para os desavisados ignorarem a atuação e a tomada autônoma de decisões por aqueles que naquela época (e até hoje) buscam concretizar melhorias sociais. Tratar tantos estudantes e camponeses como mera massa de manobra das vanguardas dos "comunistas infiltrados" no Brasil, deixando de lado sua identidade e condição de sujeitos políticos, pode ser percebido como uma cegueira proposital.

Ipojuca foi Secretário Nacional de Cultura do governo de Fernando Collor entre 1990 e 1991; é escritor e autor de alguns filmes (como Os homens do caranguejo, de 1968, e Canudos, de 1976) e peças de teatro, mas infelizmente não conheço sua produção – o que pretendo fazer logo que minha rotina de professor-estudante se acalme e me folgue o tempo corrido. Mas seu texto-panfleto me permitiu conhecer melhor essa versão dos fatos históricos brasileiros através de uma fonte inédita para mim, e por isso eu o agradeço. Mas é impossível não trazer à tona todos os caminhos equivocados aos quais a sua opinião conservadora pode nos conduzir. Sua opinião leva a uma conclusão precisa: o resgate da verdade sobre o passado (que estaria com os militares) para justificar críticas recentes ao chamado “revanchismo político” da esquerda, que sempre aspirou à punição dos torturadores e à democratização das informações ocultadas: da abertura dos arquivos à localização dos corpos de desaparecidos e informações sobre o destino que tiveram.

A aprovação do Programa Nacional de Direitos Humanos me parece ser o estopim que deu origem a tal ode ao conservadorismo de um período obscuro da história brasileira. Bem como a crítica básica e tradicional à atual candidata do PT às eleições presidenciais, pelo fato de ter integrado grupo armado de oposição à Ditadura. Mas esses motivos, independentemente da visão ideológica do estimado leitor, não deveriam determinar uma análise tão equivocada e parcial sobre o passado de nosso país e sobre um Ovril que nada mais é do que um panfleto institucional – que pode se tornar uma fonte histórica importante a depender do trato que o historiador possa dar à mesma.

Assombra-me o nível de conservadorismo do texto, e o fato de quem o produziu tenha ocupado o cargo de Secretário Nacional de Cultura no primeiro governo democraticamente eleito após 1985. Mas pelo menos vivemos em um momento histórico em que existe a possibilidade concreta da troca e da livre exposição de idéias. Com certeza algo que não foi herdado graças à "boa vontade" dos torturadores e censores militares, mas que foi fruto da atuação e das pressões oriundas do povo organizado. Que agradeçamos, nós e o próprio Ipojuca, aos mortos e vítimas do terrorismo de Estado da Ditadura Militar brasileira: eles fizeram valer nossos atuais direitos sociais, políticos e civis.

O texto “Um livro histórico fundamental” pode ser encontrado em:
http://www.wscom.com.br/blog/ipojuca/Um+livro+hist%C3%B3rico+fundamental-35

O “O Livro Negro do Terrorismo no Brasil”, ou Ovril, encontra-se disponível para download em:
http://www.averdadesufocada.com/index.php?option=com_content&task=view&id=737&Itemid=78


Recomendo: use-os com moderação.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Um molotov no quengo!


Um espaço de reflexão: essa é a ideia que me motiva. Compartilhar alguns pensamentos da peste, dos mais supérfluos aos melhor elaborados, só para dar vazão às coisas que pipocam na cabeça. Simples assim. Se existem alguns temas que seriam pautas centrais - e elas existem - a serem esmiuçadas nesse lugarzinho, tais temas certamente se diversificarão com o tempo. Pois a caravana não pára, nem pra ver aonde ela vai parar... Educação, o ofício de ensinar, a realidade da educação a partir das vivências minhas e de colegas... a isso deve se somar outras impressões, que espero, tenham um sabor especial que só os melhores coquetéis podem nos presentear - e que sejam, de preferência, belíssimos molotovs virtuais no quengo de quem chegar a lê-las.